
Acordará sobressalto com uma forte dor de cabeça que latejava minha mente. Meu corpo estava pesado e dolorido. Fazia força para me concentrar, mas minha mente estava num turbilhão. Assustado e desnorteado. Perguntas bombardeavam minha mente. Que lugar é este? Onde estou? Não fazia ideia onde estava. Olhei em volta examinando o local. Estava ajoelhado sobre uma cama da casal, num quarto todo mobilado e com algumas molduras nas parede. Havia também um despertador digital marcando 16h34.
Fechei os olhos.
Tentava imaginar como havia chegado ali, mas meu esforço foi em vão. Deve ser o efeito do álcool no meu corpo que havia consumido na festa da noite anterior! Não. Não lembrava absolutamente nada. Todas as minhas lembranças haviam desaparecidas. Estava vazio.
Olho para cima e uma onda de medo e horror percorre minha espinha. Eu não sabia quem eu era. Não sabia onde estava. Entrei em desespero. Corri nu pelo apartamento. Estava despido. Como? Será que costumo dormir peladão? Corro ao banheiro e me deparo com um espelho, o homem no espelho tateou com cuidado suas próprias bochechas, nariz, a boca, o cabelo castanho curto e oleoso. O homem era estranho. Estendemos as mãos e as pontas de nossos dedos se encontraram, a minha quente e oleosa, a dele fria, macia e feita apenas de luzes coloridas refletidas no espelho. Perguntei ao reflexo quem era e ele me respondera com um olhar vago, tão distante quanto Roma.
- Você deve ter bastante perguntas, Sr. Anderson.
Concordei.
- Tenho, sim. - Tenho? Era difícil saber o que dizer. Era difícil dizer qualquer coisa. Apesar do medo e do apagão da memória, meu sentimento mais ostensivo era o constrangimento; a incapacidade, o despropósito de mim mesmo e da minha situação. Como eu podia me sentar e pedir a um estranho que me ajudasse a recuperar os acontecimentos da minha vida?
- Claro - disse a médica - Sei o quanto é difícil pra você. Deve ser terrivelmente perturbador. Mas você está indo bem, e devia tentar relaxar, se puder.
Estávamos em seu escritório, um lugar imenso com várias molduras nas paredes, mobílias rústicas e artefatos antiguicemos decoravam o vasto sagão. A médica me indicava uma bandeja de biscoito de chocolate.
- Sim - respondi - Obrigado.
- Estado dissociativo? - disse eu - Tá bom! Quer dizer que eu estou louco?
- Não, - disse ela - quero dizer que você não teve nenhuma doença degenerativa, ou seja, você não perdeu toda sua memória ela apenas está espremida em algum lugar que você escondeu e alguma coisa está impossibilitando de acess-lá.
- Então é temporário - disse eu.
- Exatamente - disse Radke.
Ventos fortes vindo do norte, entrando pelas vidraças, denunciavam uma forte tempestade de inverno. Um gato miava incansavelmente e ainda estava nu. Preciso arrumar algumas roupas. Procurando algo para me vestir, algo me chama a atenção, estava sobre a mesa, um envelope vermelho. Me aproximei para ver o que era e nele estava escrito com caneta hidrocor: LEIA ATENTAMENTE, ABRA IMEDIATAMENTE.
Abri o envelope e encontrei duas folhas de papel - uma carta datilografada e um mapa desenhado a mão. Isto era o que a carta dizia:
Ander,
Antes de mais nada. Fique calmo.
A dra. Radke poderá responder todas as suas perguntas. É muito importante que você vai direto para a casa dela. Não pare no caminho. As chaves do apartamento estão num prego atrás da porta. Não se esqueça delas.
Com pesar e também esperança,
Anderson Subrick Número Um.
Reli a carta várias vezes. Anderson Subrick Número um. O que isso queria dizer? Liguei para o número.- Radke - atendeu uma voz.
- Doutora Radke - falei - Aqui é Anderson Subrick.
Por descuido meu deixo o envelope vermelho cair fazendo surgir uma terceira folha. Um pouco menor que as anteriores, na verdade era um RG um documento de Identidade. Olhei para a foto e o nome e fiquei pasmo, achava que iria encontrar assinado ANDERSON SUBRICK, mas o que encontrei foi MAX BRION. Estava confuso, não sabia meu passado e agora não sabia quem eu era Max ou Anderson. Se eu sou este, quem é Anderson?
- Sr.?, Sr. Anderson, aceita mais biscoito? - ela havia trazido outra bandeja de biscoitos.
- Não, disse eu - Não, obrigado.
- Sei que é dificil, mas você vem piorando em cada nova seção - falou a doutora.
- Doutora, quantas vezes passamos por isso? perguntei bruscamente.
- Já foram três seções - disse Radke.
- Oh, não - disse eu aflito.
- Hoje vamos ficar por aqui, é muita informação nova para você assimilar - falou ela.
- Tá bom - respondi.
- Ah, antes de você ir embora mais uma coisa - falou a médica - No passado, você escreveu e espalhou cartas a si mesmo, para que fossem lidas após cada recaída. Preciso lhe pedir que não a leia estas cartas elas podem prejudicar sua recuperação.
- Você já encontrou alguma destas cartas? - perguntou a médica.
- Não - respondi. Mas era mentira e ela percebera então engatei - Não, apenas encontrei um bilhete atrás da porta indicando ligar para a dra. Radke e o caminho que deveria ir - era uma meia verdade que a convenceu. - Ok! Mas, por favor, se você encontrar qualquer outra coisa, traga direto para mim. Não leia. Sei que o que estou te pedindo é difícil, mas é muito, muito importante que eu possa ajuda-lo. Certo?
- Tá bom - respondi - Claro que sim, sem problemas.

